Romanos
O que vê o texto do meio?
Romanos está entre Gênesis e o Apocalipse e vê os dois. No capítulo 5, Paulo olha para trás, para Adão: por meio de um único ser humano, o errar o alvo, hamartia, entra no mundo. A lei vem para que o errar se mostre como errar, e ele cresce além de toda medida. No capítulo 7, o mesmo enredo é contado por dentro, por um “eu” que quer o bem e não o alcança, até o grito: quem me libertará deste corpo de morte? A virada em 8,1 não vem de um desempenho melhor. É uma mudança de posição. Nos capítulos 9–11, Paulo olha adiante, para a história dos povos. Israel tropeça, o tropeço abre caminho para as nações, e nenhum povo fica de fora da história para sempre.
Ato I — A carta do meio
1. A carta do meio
Em algum momento da vida, muita gente passa por um instante em que a própria vida, de repente, se lê como uma história. Pode vir com um comentário, um fracasso ou uma noite tranquila, e muitas vezes chega anos depois dos acontecimentos que explica. Cenas antigas se encaixam, uma após a outra, e cada uma parece agora levar à seguinte. No mesmo instante, o caminho à frente mostra para onde vinha seguindo o tempo todo. Os acontecimentos não mudaram; agora estão ligados, um por causa do outro.
Antes desse instante, uma vida pode ser lembrada e planejada, mas ainda não tem enredo. As lembranças ficam lado a lado como fotografias numa gaveta, e os planos apontam para a frente sem saber de onde vêm. Depois do instante, as fotografias formam uma sequência e os planos encontram sua direção. A pessoa reconheceu a forma que os fatos de sua vida vinham compondo o tempo todo. Este ensaio lê um texto escrito depois de um instante assim, por alguém que tinha visto o mesmo acontecer com a história da humanidade.
Por volta do ano 57, Paulo escreveu uma longa carta a Roma, cidade que ainda não tinha visitado. Seus leitores formavam um grupo misto: alguns vinham de seu próprio povo, Israel, e outros dos muitos povos do império. Ele escreveu para explicar por que a história que vinha contando em toda parte dizia respeito aos dois grupos ao mesmo tempo, embora tivessem vivido durante séculos segundo regras diferentes. Nenhum dos dois, pensava ele, podia ouvi-la direito sem o outro. Em suas outras cartas, ele responde às perguntas e às brigas de comunidades concretas; aqui conta a história inteira, da primeira página da história humana até a última.
A história que a carta conta começa com o primeiro ser humano, no início mesmo da história humana (5,12). Termina com um desvelamento: o que esteve oculto por longas eras agora se mostra a todos os povos, e a humanidade pode ver onde está em sua própria história (16,25–26). Entre esse começo e esse fim, Paulo situa seu próprio povo, os outros povos e a si mesmo, cada um num ponto diferente da mesma linha. A carta é construída do jeito que uma vida aparece depois do instante do reconhecimento. Tudo nela está ligado, uma parte por causa da outra, como as fotografias da gaveta que finalmente formam uma sequência.
Neste livro, a carta está entre dois outros textos. Gênesis contou o começo: como uma pessoa entra na linguagem e começa a errar o alvo sem perceber. O Apocalipse foi escrito uns quarenta anos depois da carta, e Paulo nunca o conheceu, mas ele leva o mesmo nome do fim desta carta, o Desvelamento, e descreve como um modo de vida construído sobre esse errar cai por dentro. Romanos precisa mostrar que o começo e a direção pertencem a uma só história, e Paulo só pode tentá-lo porque escreve depois de um reconhecimento próprio. A pergunta deste ensaio é se esse reconhecimento vê o começo e a direção que o fim depois descreve.
2. Adão
Quando Paulo conta a história humana no capítulo 5, não começa por seu próprio tempo, mas pelo primeiro ser humano de Gênesis. Em hebraico, o nome Adão significa simplesmente “ser humano”, e é assim que Paulo o usa: como nome para todos nós. O ensaio anterior mostrou o que a história de Adão conta: como os seres humanos chegaram à linguagem e começaram a ver o mundo, e a si mesmos, a uma pequena distância. Isso aconteceu uma vez com a espécie, há muito tempo, e acontece de novo com cada criança que aprende a falar. Paulo começa sua história nesse limiar, onde começa toda história humana.
Por meio desse primeiro ser humano, escreve Paulo, o errar o alvo entrou no mundo, e tudo o que dele decorre (5,12). Ele aponta para um acontecimento real: algo que aconteceu à humanidade quando ela chegou à linguagem. Com a linguagem veio a capacidade de nomear um alvo, de mirá-lo e de dizê-lo em voz alta, e com o alvo veio a possibilidade de errá-lo. Desde então, todo ser humano nasce num mundo onde as pessoas miram e erram. Paulo nomeia o primeiro elo de uma corrente que chega até seus leitores.
Ele lê a cena do jardim como uma sequência, do jeito que se lê a primeira cena de uma peça depois que a peça terminou. Vista do fim, a abertura já não é um conto antigo, mas o primeiro lance de uma história que continua. Cada cena posterior repete algo dela, num novo cenário e com novas pessoas, como um padrão de família que volta a cada geração. É assim que Paulo pode passar do jardim aos seus leitores sem interrupção. Para ele, estão na mesma história, só que mais adiante.
Depois ele acrescenta um passo que Gênesis deixa sem dizer. Entre Adão e Moisés, por meio de quem foi dada a régua, diz ele, o errar já estava ali, mas não era medido nem julgado, porque não havia nada com que medi-lo (5,13–14). As pessoas viviam a uma distância daquilo para que foram feitas, sem um nome para essa distância. Uma criança que nunca recebeu nota pode estar muito atrás ou muito à frente, e ninguém, muito menos a criança, consegue dizer. O tiro falhado existe antes da medida, mas sem medida ainda não pode ser visto.
Com esse passo, Paulo põe toda a história humana numa única linha, de um começo em que se errou o alvo até um fim que ainda está por vir. Se a linha é um enredo, ela tem de se sustentar na carta de três maneiras: a medida deve vir depois do errar, não antes; a virada deve vir de outro lugar que não um desempenho melhor; e o fim deve reunir todos os povos. A leitura cai se a carta atribuir a virada a um esforço maior, ou se algum povo ficar de fora da história para sempre. Essas condições ficam escritas agora, antes de ler os capítulos 7–11. O próximo ponto da linha é o momento em que a vida boa é escrita como regras, e com ele vem o primeiro sinal de que algo deu errado.
Ato II — A medida
3. A medida
Pense num corredor que corre porque correr é bom: o corpo se move, a respiração se acalma e a paisagem muda. Para ele, o que importa é a própria corrida, não o que alguém diz dela, e o mesmo vale para tudo o que vale a pena buscar: aprender uma língua, uma amizade ou um bom trabalho. Cedo ou tarde a corrida ganha uma medida, um relógio que dá ao desempenho um número, como a escola dá uma nota e o trabalho dá uma pontuação. O relógio mostra a que distância ele está de seu objetivo. No começo isso ajuda, já que agora ele pode ver seu progresso e treinar, semana após semana, para diminuir a distância.
Mas, assim que chega o relógio, algo começa a mudar sem ser notado: ele já não corre por uma trilha na floresta, mas contra os segundos. O corpo, a respiração e a paisagem, tudo aquilo por que começou a correr, saem de vista. Quanto mais ele olha para o número, mais se afasta da própria corrida, e os números continuam melhorando enquanto isso acontece, e é por isso que é tão difícil perceber. Ninguém quer isso, nem o corredor nem quem lhe deu o relógio. O que cresce é a outra distância, entre o corredor e o que ele realmente queria, e nenhum relógio jamais mede essa.
Paulo viu a mesma ordem na história humana. Seu povo recebeu, por meio de Moisés, o nomos, uma medida que mostra onde a vida está, como um relógio mostra ao corredor seu desempenho, para que ele possa melhorá-lo. Mas no medir acontece algo que nenhum dos dois faz: quando a corrida vira número, os olhos do corredor passam da corrida para o número, e cada medição mostra um novo modo de ficar aquém (5,20). Parece uma falha de quem deu a medida, mas Paulo diz que esse era o propósito. A distância não é produzida nem pelo relógio nem pelo corredor, mas por um mecanismo, e só o que se tornou visível pode um dia ser reconhecido.
Depois Paulo conta o mesmo de dentro de uma única pessoa, e a ordem é a mesma de toda infância. Primeiro há a vida sem medida, em que a pessoa simplesmente quer e vive (7,9). Depois vem um mandamento que nomeia uma coisa que ela não deve querer, e o nomear volta a atenção justamente para isso, como “não olhe no armário” faz do armário o lugar mais interessante da casa. Mas Paulo não faz nem da pessoa nem do mandamento o agente, e sim da hamartia: o errar o alvo aproveitou a ocasião por meio do mandamento (7,8). O mandamento é santo (7,12), a pessoa quer o bem, e mesmo assim a distância cresce, porque é o próprio errar que a produz.
Este é o movimento que o ensaio inteiro acompanha, e ele tem três passos: um alvo é dado, uma medida é feita para ajudar a alcançá-lo, e aos poucos a medida toma o lugar do alvo. O agente não é a pessoa nem a lei, mas o errar o alvo, o mecanismo que Gênesis descreve como a entrada na linguagem. A pessoa participa do movimento sem conduzi-lo, e por isso este livro o chama de deslize, um movimento em que ninguém é culpado. Os mais fortes são os mais presos, porque são os melhores em cumprir medidas. O movimento começa em toda vida em que um alvo recebe uma medida, e nada em seu início diz aonde ele leva.
4. O grito e a virada
Quase todo mundo conhece alguém como Robin: a primeira a chegar ao escritório, a última a sair, e nunca uma meta perdida. Ela aceitou o emprego porque queria fazer um bom trabalho, do tipo de que pudesse se orgulhar no caminho de volta para casa. A empresa deu a esse desejo uma medida, metas mensais, para que o progresso pudesse ser visto. No começo as metas ajudaram, porque mostravam o caminho. Mas, mês após mês, ela olhava mais para os números e menos para as pessoas para quem o trabalho existia, e à medida que os números subiam, o próprio trabalho se afastava.
Paulo descreve uma pessoa assim por dentro, como se tivesse se sentado à mesma mesa durante anos. Ela quer o que é bom e consegue vê-lo, mas não consegue alcançá-lo. O que ela não quer é o que continua fazendo: ficar até mais tarde, conferir de novo, prometer mais (7,18–19). Quanto mais se esforça, mais se afasta do trabalho que amava e das pessoas que ele devia ajudar. No fim, essa distância é a única coisa que ela consegue ver, e cada novo esforço só a mostra com mais nitidez (7,13).
Certa manhã, Robin está sentada no carro em frente ao escritório e não consegue entrar. A bolsa está no banco ao lado, o celular já está cheio de mensagens, e a mão não se move até a porta. O grito de Paulo, o mesmo do início do livro, agora é dela: quem me libertará deste corpo de morte (7,24)? Na linguagem do teclado, a pergunta é: onde fica o Esc, como saio deste programa? Esforçar-se mais não vai ajudar, porque esforçar-se mais é exatamente o que a trouxe a este estacionamento, embora todas as metas deste ano tenham sido cumpridas.
A virada não vem de nada que Robin decida, mas de o movimento parar. Ela ainda não vê o que aconteceu; só sabe que não consegue entrar. Paulo vê, porque escreve depois de sua própria virada: a promoção, as metas, as noites até tarde e o estacionamento não são má sorte, mas uma história. Sua frase seguinte diz o que há do outro lado dessa parada: já não há condenação para os que estão en Christō (8,1), uma posição em que a pessoa não se apoia nas próprias medidas, mas na história. Robin só reconhece isso mais tarde, mas a virada já aconteceu.
Paulo explica por que esforçar-se mais não podia funcionar: uma régua só age por meio da pessoa que ela deve melhorar, e justamente essa pessoa estava se desgastando (8,3). Para Paulo, a causa da virada é Cristo; este livro acompanha apenas o movimento da virada, sem tomar posição sobre sua causa. O que foi conquistado não muda; o que muda é onde a pessoa está. A virada tem um custo, os anos de noites até tarde, mas quem já soltou um objetivo que o estava desgastando conhece o alívio que vem com essa perda. O mesmo vale para a humanidade: quem vê os passos que a trouxeram até aqui vê em que ponto da história ela está.
5. Zelo sem reconhecimento
Depois da virada começa a dor de Paulo, e ela já não é sobre ele mesmo. Ele escreve sobre uma profunda tristeza por seu próprio povo, Israel (9,1–5). A eles tinham sido dadas promessas, um pacto que os vinculava e uma régua para viver. A história que acaba de contar sobre uma pessoa, ele agora a vê na história de um povo inteiro, estendida por muitas gerações. O que aconteceu na mesa de trabalho e no carro acontece aqui ao longo de séculos, devagar o bastante para que nenhuma geração pudesse vê-lo por inteiro.
Na história deles a ordem é clara: o povo foi primeiro libertado e escolhido, e só depois recebeu regras para viver dentro de um vínculo que já existia. Uma família tem suas regras só porque já é uma família. Uma criança é amada antes de chegar o primeiro boletim, e o boletim existe para ajudá-la a crescer dentro desse amor, não para comprá-lo. Mas aos poucos a criança começa a tentar ganhar com notas o que já era dela. Cada nota boa começa a parecer prova de amor, e cada nota ruim, sua perda.
Paulo vê o mesmo deslize na história de seu povo: começaram a garantir o vínculo vigiando a medida, como se a relação pudesse ser mantida viva pelo cumprimento das regras (9,31–32). Ele o vê primeiro neles só porque foram os primeiros a receber uma régua escrita. Eles se dedicam com todas as forças, diz, mas a sua dedicação carece de reconhecimento, porque não veem onde estão (10,2). A palavra que ele usa para o que falta é a palavra comum para reconhecer alguém ao reencontrá-lo. É o instante em que um rosto na multidão se revela um amigo que se conhece há anos.
A dedicação deles é real, e não é tola. Só está voltada para a medida, e não para o vínculo a que a medida foi dada para servir, como olhos fixos num mapa enquanto a paisagem passa. Quanto mais ela se empenha, mais os afasta desse vínculo, do mesmo modo que o esforço de Robin a afastou do trabalho. Paulo conhece isso por dentro, porque um dia compartilhou essa mesma dedicação. Ele não escreve como um juiz que olha seu povo de cima, mas como um deles, que acaba de ser parado no mesmo caminho.
Depois ele diz para onde a régua vinha apontando o tempo todo: a virada que o capítulo anterior descreveu, um lugar dentro da história onde o vínculo já não precisa ser garantido pela medida (10,4). Uma régua sempre apontou para além de si mesma, como uma placa de sinalização que só é útil até o viajante chegar. Um povo que segurou a placa fielmente, geração após geração, viu a cidade surgir no horizonte e não conseguiu largar o poste. Este é o sofrimento da história, o sofrimento da fidelidade, e não do fracasso. Ele não pertence a nenhum povo em particular, porque acontece com qualquer um que guarda a medida melhor do que vê para onde ela aponta.
Ato III — Os povos
6. O mesmo movimento nos povos
Na mesma passagem, Paulo diz mais uma coisa: os outros povos encontraram a virada, embora nunca tivessem tido uma medida por meio da qual buscá-la (9,30). Disso se poderia tirar uma conclusão dura: o povo que teve o vínculo primeiro ficou para trás, e os outros o ultrapassaram. O próprio Paulo levanta essa conclusão como pergunta, se seu povo foi então posto de lado, e responde que não, pois ele mesmo pertence a ele (11,1). Se seu povo tivesse ficado para trás, a história se partiria no meio, e a linha do primeiro ser humano ao último teria uma lacuna. Por isso ele procura o lugar do tropeço dentro da história.
O tropeço, escreve ele, não é uma queda (11,11). Por meio dele o caminho se abriu para os outros povos, como uma rua fechada para obras num ponto desvia o trânsito por bairros aonde ele nunca chegava. O mesmo acontecimento se lê como derrota de um lado e como libertação do outro. O povo que tropeçou não saiu da história; seu tropeço mudou a direção dela. O tropeço é a dobradiça de uma porta: nesse ponto, a história se volta para todos os povos.
Mas o caminho que se abriu para os povos não os conduz por fora do deslize. O deslize não pertence a nenhum povo em particular; é um movimento que começa sempre que um alvo recebe uma medida, e nos capítulos 3 e 4 ele aconteceu ao aprendiz, à criança e a Robin. Paulo disse o mesmo no início da carta: todos, tanto seu próprio povo quanto os outros povos, erraram o alvo (3,9; 3,23). Por isso ele adverte os povos a não se orgulharem, como ramos novos enxertados numa árvore velha (11,17–21). Ele não descreve um perigo que poderia se concretizar, mas um movimento que tem de se repetir.
Paulo não vê que forma a repetição vai tomar, mas a história mostra. Os povos receberam uma medida própria: as Escrituras e a Igreja, que lhes diziam o que o vínculo exige e quem pertence a ele. No começo a medida ajudou, mas depois os olhos passaram para o que se podia conferir: a doutrina certa, as palavras certas e a filiação certa. O vínculo torna especial quem vive nele em comparação com os outros, e pouco a pouco muitas nações passaram a se ver exatamente assim. O fardo tinha passado adiante: os povos começaram a carregar a mesma condição especial que tinha sido o destino de Israel.
Agora Paulo diz o que estava oculto e agora se mostra. Parte de seu povo ficou incapaz de ver até que o número completo dos outros povos tenha entrado, e assim todo o Israel voltará ao seu lugar (11,25–26). A palavra “até” põe um limite à fase dos povos: ela tem um começo e um fim, e depois dela vem uma virada, como veio para Israel. Os dois percorrem o mesmo movimento em tempos diferentes, e nenhum ultrapassa o outro. Um enredo que parecia partido se revela ter sido o tempo todo um único movimento.
7. Todos no mesmo errar
No começo está o primeiro ser humano, por meio de quem o errar o alvo entrou em toda a humanidade muito antes de alguém medi-lo (5,12–14). Depois, a vida boa foi escrita como regras para um povo, e em sua história o deslize se tornou visível (5,20; 9,31–32). Em seguida a medida, e com ela o fardo, passou aos povos, até que sua fase esteja completa e Israel volte ao seu lugar (11,25–26). Paulo escreve no início da terceira fase, mas, como cada passo decorre do anterior, não só depois dele, mas por causa dele, ele consegue ver para onde a linha continua. Seu último ponto diz respeito a todos ao mesmo tempo.
Paulo o diz numa só frase: Deus encerrou todos na desobediência, para usar de misericórdia com todos (11,32). A palavra aqui não é hamartia , mas apeitheia, uma falha em escutar, e no entanto o movimento é o mesmo: ninguém está fora daquilo de que todos são tirados. Nenhum povo fica como o culpado, nem o povo que teve a medida primeiro nem os povos que a receberam depois, porque o enredo diz respeito a todos (10,12). A medida que separava os povos revela-se aquilo que os une: cada um percorreu com ela o mesmo movimento. Quando todos estão no mesmo errar, ninguém precisa mais garantir um lugar acima dos outros.
Paulo tem um nome para esse ponto final, e ele vem nas últimas linhas da carta: o desvelamento (16,25–26). O que esteve oculto por longas eras agora se mostra a todos os povos. É o instante em que a humanidade vê onde está em sua própria história, do jeito que uma pessoa o vê quando sua própria vida começa a se ler como uma história. O começo e o fim da carta estão agora ambos à vista: o primeiro ser humano, que errou o alvo sem perceber, e a humanidade, que finalmente vê. Paulo consegue ver as duas pontas porque ele mesmo passou pelo movimento e sabe aonde ele leva.
No início deste ensaio, a pergunta era se o reconhecimento de Paulo realmente mostra as duas pontas. Mostra-as como um único movimento: o errar que veio com a linguagem é trazido à vista no fim, e as mesmas pessoas estão nas duas pontas. O mesmo acontece com qualquer um cuja vida de repente começa a se ler como uma história, em qualquer idade. Lembranças dispersas se ordenam numa sequência, e o caminho à frente mostra para onde vinha seguindo. Os acontecimentos não mudaram; agora a pessoa vê em que ponto de sua própria história está.
O movimento foi agora visto por inteiro: um alvo recebe uma medida, a medida toma o lugar do alvo, e quando a medida passa adiante, o movimento passa com ela. Ele se repete numa pessoa, num povo e na história dos povos, e nenhum esforço o detém, porque o esforço pertence ao movimento. Ele só termina quando a medida e o alvo se separam, e isso acontece onde todo o percurso pode ser visto. Paulo encerra seu argumento aqui, maravilhado com uma história grande demais para alguém conduzir (11,33). O que ele vê na linguagem da história, o último livro da Bíblia mostra em imagens, e o próximo ensaio o lê.
Disposição · nota de trabalho
Uma ponte que vê o começo e o fim. 7 capítulos, 2 + 3 + 2, cada um com 5 parágrafos × 5 frases. Moldura: o arco da vida da criança ao adulto, o mesmo em todos os ensaios.
Ato I — A carta do meio
A carta do meio
- Moldura: o instante em que a própria vida começa a se ler como uma história.
- Antes: lembranças e planos sem enredo; depois: acontecimentos um por causa do outro.
- Carta a Roma por volta do ano 57; leitores: Israel e os outros povos.
- A carta começa com o primeiro ser humano e termina com o desvelamento (16,25–26).
- Os três textos do livro; pergunta: o reconhecimento de Paulo mostra as duas pontas?
Adão
- Adão = “ser humano”: a chegada à linguagem como espécie e em cada criança (ensaio 3).
- O errar o alvo entrou no mundo por meio do primeiro ser humano (5,12) – um acontecimento real, não uma figura de linguagem.
- O jardim como sequência: a primeira cena da peça, depois que a peça terminou.
- De Adão a Moisés: o errar sem medida; a criança antes das notas (5,13–14).
- Toda a história numa só linha; próximo ponto: a vida boa é escrita como regras.
Ato II — A medida
A medida
- O alvo recebe uma medida: nota, pontos, curtidas – no começo ajuda.
- O olhar passa para o intervalo entre dois números; a pessoa se afasta da coisa em si.
- Humanidade: regras por meio de Moisés, a distância cresce – de propósito, para que se torne visível (5,20).
- O indivíduo por dentro: a regra nomeia o proibido, o armário, a coisa nomeada atrai (7,7–10).
- O deslize: três passos, ninguém é culpado; o jovem sentado no alto do escorregador.
O grito e a virada
- A funcionária e a medida: o olhar passa para os números, o trabalho se afasta.
- Paulo por dentro: quer o bem e não o alcança; a distância cresce até ser a única coisa que se vê (7,13–19).
- O grito no carro: quem me tira de uma vida que me consome (7,24).
- Dois lugares e um caminho = história; os números já não têm poder de julgar a vida dela (8,1).
- Por que o esforço não podia ajudar (8,3); o custo, o alívio; o mesmo na escala da humanidade.
Zelo sem reconhecimento
- A tristeza de Paulo por seu próprio povo (9,1–5).
- Primeiro a relação, depois as regras; a família; a criança é amada antes do boletim.
- O deslize se vê primeiro em Israel, porque ele foi o primeiro a receber uma medida escrita (9,31–32); falta o reconhecimento (10,2).
- A dedicação é real; Paulo é um deles, parado no mesmo caminho.
- A placa de sinalização (10,4): o sofrimento da fidelidade, que pertence a todos.
Ato III — Os povos
O mesmo movimento nos povos
- Observação (9,30) e conclusão: o povo ficou para trás? Paulo pertence a ele (11,1).
- O tropeço não é uma queda (11,11): o caminho se abre para os povos; a dobradiça.
- Necessidade: o deslize não pertence a um só povo (mecanismo, 3,9; 3,23); advertência aos ramos (11,17–21).
- História: os povos recebem uma medida – as Escrituras e a Igreja; o olhar vai para a doutrina e a filiação.
- “Até” (11,25–26): dois caminhantes, o mesmo movimento, nenhum ultrapassa o outro.
Todos no mesmo errar
- A linha reunida: o primeiro ser humano (5,12–14) → a medida para um povo (5,20; 9,31–32) → a medida e o fardo para os povos (11,11; 11,25).
- “Até”: Israel volta, ninguém carrega o fardo sozinho (11,25–26); todos no mesmo errar (11,32); não há diferença (10,12).
- O nome do ponto final: desvelamento (16,25–26) – a humanidade vê onde está; por isso Paulo vê as duas pontas.
- Resposta à pergunta do ensaio; a moldura se fecha: a vida se lê como uma história, em qualquer idade.
- O mecanismo por inteiro: a medida passa adiante, o movimento passa junto; termina quando a medida e o alvo se separam; 11,33; ponte para o Apocalipse. Sem fanfarra.
- Os nove parágrafos do rascunho da tarde se distribuem como material entre os capítulos desta estrutura. O capítulo 4 é reescrito como capítulo próprio.
- Ordem de escrita: 4 → 5 e 3 → 6 e 2 → 7 e 1.
- Todos os sete ensaios seguem o mesmo modelo. No site, cada ensaio recebe atos (Ato I–III) e capítulos 1–7.
- Exemplo de abertura resolvido: a juventude no arco da vida.
Rascunho anterior, 27 out. (material)
A carta de Paulo aos Romanos olha para trás antes de olhar para dentro. No quinto capítulo, ele volta ao jardim e nomeia o momento em que o enredo começou: por meio de um só ser humano, a hamartia entrou no mundo, e por meio da hamartia , a morte (5,12). Ele não reconta a história, porque seus leitores conhecem Gênesis. Em vez disso, lê-a como uma sequência, do jeito que se lê o primeiro ato de uma peça a partir do último. Nessa leitura, Adão não é um caso entre muitos; é o ponto em que toda a história humana entra em seu curso.
Depois Paulo acrescenta um passo que Gênesis não explicita. Entre Adão e Moisés, escreve ele, a hamartia já estava no mundo, mas não era contabilizada, porque não havia nada com que contabilizá-la (5,13–14). Com Moisés vem o nomos, a lei, e com a lei vem uma medida. A afirmação de Paulo sobre o que a medida faz é precisa e incômoda: o nomos entrou ao lado para que o passo em falso aumentasse (5,20). A medida foi dada por causa do alvo, e seu primeiro efeito é tornar a distância do alvo visível e maior.
Esta é a complicação do enredo, dita na própria gramática de Paulo. Um alvo é dado, uma medida é feita para garantir o alvo, e a medida começa a tomar o lugar do alvo. Todo esforço para cumprir a medida é sincero, e todo esforço faz o errar crescer, porque quem a cumpre agora mira a medida, e não mais o alvo. Nada aqui é uma lição moral sobre pessoas fracas. É o mecanismo do primeiro capítulo, a correção que cai ao lado do alvo, escrito quase dois mil anos antes.
No sétimo capítulo, o mesmo enredo é contado de novo, desta vez por dentro. Quem fala é um “eu”, e o “eu” se lembra de um tempo anterior ao mandamento: outrora eu vivia sem a lei, mas, quando veio o mandamento, a hamartia ganhou vida, e eu morri (7,9). A sequência segue Gênesis passo a passo: uma vida sem medida, uma palavra que proíbe, um desejo despertado pela palavra, e a morte. Os leitores discutem há muito tempo se o “eu” é Paulo, Adão ou Israel. Dentro das condições deste livro, a resposta é mais simples: é a posição de qualquer um que entrou na linguagem e recebeu um alvo.
Dessa posição a medida parece boa, e Paulo insiste em que ela é boa. O mandamento era destinado à vida, e acabou trazendo a morte (7,10), porque a hamartia tomou o mandamento e o usou. O “eu” quer o bem e não o faz, e faz o que não quer (7,15; 7,19). Cada tentativa de diminuir a distância a aumenta, até que o errar se mostra como aquilo que é, além de toda medida (7,13). Então vem o grito: miserável ser humano que eu sou, quem me libertará deste corpo de morte (7,24)?
A virada vem na frase seguinte, e vem sem nenhum novo esforço. Agora, pois, já não há condenação para os que estão em Cristo (8,1). O que a lei não podia fazer, porque tinha de agir por meio da própria carne que devia corrigir, foi feito de fora do círculo do medir (8,3). O “eu” não teve finalmente sucesso; foi levado a outra posição, da qual a medida e o alvo podem ser distinguidos. Isto é a peripeteia no sentido de Aristóteles, uma reviravolta que vem de dentro do enredo e muda sua direção, com o reconhecimento logo atrás.
Depois da virada começa a dor de Paulo, e ela já não é sobre ele mesmo. No capítulo 9, ele escreve sobre uma grande tristeza por seu próprio povo, Israel, a quem pertencem as alianças, a promulgação da lei e as promessas (9,1–5). O enredo que acabou de contar sobre o “eu”, ele agora o vê na história de um povo. Israel buscou a lei da justiça e não a alcançou, porque a buscou como se o alvo pudesse ser garantido por obras (9,31–32). A expressão do próprio Paulo é exata: têm zelo por Deus, mas não segundo o reconhecimento, epignōsis (10:2).
No capítulo seguinte, Paulo nomeia o alvo. O telos da lei, ao mesmo tempo seu alvo e seu fim, é Cristo (10,4). A medida sempre apontou para além de si mesma, e um povo que a guardou fielmente viu o alvo para o qual ela apontava passar ao seu lado. Aqui Paulo faz a pergunta que as condições deste livro exigem, se Deus rejeitou o seu povo, e responde de imediato: de modo nenhum, pois eu mesmo sou israelita (11,1). Paulo não mudou de religião; fala como alguém do povo cuja história está contando.
Depois o enredo se volta para fora. O tropeço de Israel, escreve Paulo, não é uma queda: por meio de seu passo em falso, o caminho se abre para as nações (11,11). Um endurecimento veio sobre parte de Israel até que a plenitude das nações tenha entrado, e assim todo o Israel voltará ao seu lugar (11,25–26). A última frase do argumento abarca todos: todos foram encerrados juntos no mesmo errar, para que todos possam ser tirados dele (11,32). O olhar de Paulo passou do jardim ao fim da história, e o que ele vê ali na linguagem da história, o Apocalipse mostra em imagens.
Material de trabalho: A mesma passagem (Romanos 7) · A mesma queda (Romanos 9–11) · disposição do sétimo ensaio
- Os números dos versículos são pontos de controle: cada frase descreve o movimento da passagem e pode ser conferida no versículo indicado. Os termos de Paulo são vertidos pelo que fazem no movimento: nomos como régua ou medida; o grito de 7,24 como um modo de viver que desgasta aquilo que busca, não como morte física; en Christō (“no ungido”) como um lugar dentro da história; epignōsis (10,2) como reconhecimento; telos (10,4) como mira e fim.
- Romanos 5,12–14; 5,20 (5,20 conferido com a ESV). — 5,12–14 a verificar
- Romanos 7,7–10; 7,13; 7,18–19; 7,24. — a verificar
- Romanos 8,1; 8,3 (8,3 conferido com a ESV). — 8,1 a verificar
- Romanos 9,1–5; 9,31–32; 10,2; 10,4. — a verificar
- Romanos 3,9; 3,23; 9,30; 11,1; 11,11; 11,17–21; 11,25–26; 11,32; 11,33. — a verificar
- Data da carta, por volta de 57. — a verificar
- Ordem da relação e das regras: Êxodo 20,2 vem antes dos mandamentos; sobre cumprir as regras como permanecer dentro de um vínculo já existente, e não como conquistar a entrada, ver E. P. Sanders, Paul and Palestinian Judaism (1977), “nomismo da aliança”. — a verificar
- Romanos 16,25–26: a carta termina com o desvelamento (apokalypsis) do que esteve oculto por longas eras, agora mostrado a todos os povos. — a verificar
- O corredor é a imagem que Paulo usa para si mesmo (1Cor 9,24–26; Fl 3,14, kata skopon, rumo ao alvo), e em Romanos ele a usa para Israel, que buscou a medida e não a alcançou (9,16; 9,30–32). Em 7,8, o sujeito da frase é a hamartia: o errar o alvo aproveitou a ocasião por meio do mandamento; o próprio mandamento é santo (7,12). — a verificar